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quarta-feira, 24 de julho de 2013

FÉLIX JOGADO E TIRADO À FORÇA NO ARMÁRIO


E, de repente, a revelação se mostra inesperada e assustadora: Félix é gay. A família atônita. O pai sem chão. Como se não soubessem, como se o cara não já aparentasse sinais, como de muito tempo, muito mesmo, não o tivessem levado para uma carapaça e o trancafiado nela.

O capítulo de Amor à Vida que promete a tamanha surpresa está programado para 1º de agosto. A esposa vai armar a queda da máscara. Mas não é somente Félix o mascarado na história. Eles sabiam. Tanto sabiam, que o encarceraram em uma vida que não era a dele.

Félix não se prendeu lá sozinho. Foi o pai que tramou o seu casamento, contratou mulher, para salvá-lo de ser homo e salvar a própria honra de macho que não gera veado.

O pai sabia. Sempre soube, sempre ocultou para si mesmo que sabia. Engoliu o próprio conhecimento médico em prol da homofobia.

Decidiu sufocar no filho o que  não poder ser sufocado. Era melhor mantê-lo no armário, infeliz, irreal, que ter seu nome envolvido em algo que considera tão vil.

Félix, nesse ponto uma vítima,  com todo um entorno gritando ser sua condição a de um desvirtuado, intimidado, embarcou na clausura. Mas a cada passo, a cada dia, o impulso secreto dava sinais de  vida, de que não era reles virose que se cura com peitos e vagina.

Tanto que tem pastor que se diz salvo e alega temer homem por perto pela tentação da carne. E ex-ex-gay vindos de um sofrido período de negação inútil.

O que Félix é, o que estava no escuro, preso em correntes, veio à superfície. Como sempre vem, de uma forma ou de outra, em uma cantada, em um olhar, em salas de bate-papo, em pegações de banheiro público, em qualquer lugar que se considere promíscuo. Quem é proibido de se expressar na luz  precisa de caverna.

Ninguém se livra de essência. Félix não se livrou da sua. Ele é pintoso demais. É  personagem que destoa de boa parte dos enrustidos, os que se patrulham para evitar vestígios,  mas nem por isso irreal.

Existem  Félix. Já conheci. Muitos já conheceram. Os que não enganam. Os famosos tem pai que é cego.

Na verdade, não há  cegueira no pai. Ele viu e interviu. Não fosse a intromissão paterna, Félix, quem sabe, seria bem mais bandeiroso, totalmente distante do imposto modelo hétero-correto-do-homem-se-portar. Interviu. Entretanto, não resolveu  como queria. Abafou. Piorou. Criou um ser artificial em tudo, até para ele mesmo.

A prepotência de Félix o faz pensar que ninguém desconfia dele, que pode dar pinta o quanto quiser que está acima dos julgamentos. Natural. Quem vive em um mundo de fugas, de gato e rato, tanto pode pender para a paranoia quanto decair para ilusões de poder.
Ele se acha. Precisa se achar para melhorar a angústia interna de ser extremamente quem não é.

Passar pela fase enrustida é comum, até eterna, entre LGBTs. É sofrer na autovigília, no “não posso isso”, “tenho que maneirar nos termos gays”, “aumentar o palavreado e gestos hétero”.

A sociedade ensina, pressiona e cobra. Qualquer deslize vem acompanhado de olhares e insinuações. As lições: “ser gay é o errado, ser hétero é o certo. Se for gay que o seja heterossexualizado, resumido, oculto, que não fale, pois o gay nos constrange”. Aí se obedece. Para não ferir os corretos e sensíveis olhos da maioria, para ser mais bem aceito.

Um comentário:

  1. sabias palavras como sempre
    textos incríveis
    "o que estava no escuro, preso em correntes, veio à superfície. Como sempre vem, de uma forma ou de outra..." @C_Cezar

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